A pública vida íntima de Nan Goldin

Nan Goldin

Fotos intensamente pessoais, espontâneas, sexuais e irreverentes. Assim funciona a fotógrafa Nan Goldin, que através de imagens sempre tornou pública a vida privada, como um polêmico diário. Depois de vencer algumas censuras iniciais por aqui, finalmente sua obra chegou ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na exposição “Heartbeat”, onde fica até 8 de abril. Nascida em Washington em 1953, Nan Goldin cresceu numa família judia de classe média em Boston, Massachussetts. Sua irmã mais velha se suicidou aos 18 anos. Nan começou a fotografar com 15 anos, e ficou obcecada em nunca mais perder a memória de alguém de novo. Em sua primeira mostra solo em 1973, documentou a comunidade gay e transexual da cidade. Seu sonho era ser fotógrafa de moda mas ao registrar a cultura gay e seus próprios conflitos íntimos tornou-se uma das maiores influências na fotografia atual. Você nunca vai esquecer o que viu no mundo de Nan Goldin. 

 

Olhar pioneiro sobre a comunidade gay

Depois de se formar na School of the Museum of Fine Arts, onde trabalhava suas impressões com o processo de Cibachrome, mudou para Nova York e passou a interessar-se pela subcultura de drogas pesadas em Bowery, uma rua na vizinhança do sul de Manhattan. Tiradas entre 1979 e 1986, essas fotografias formaram sua principal obra The Ballad of Sexual Dependency – título tirado da ópera Threepenny de Bertolt Brecht. Considerada uma das maiores influências da produção ocidental atual.

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Composta por 720 fotografias, compiladas entre 1981 e 1996, “The ballad of sexual dependency”, é apresentada no MAM em formato de slideshow com trilha sonora assinada por Nan, que vai desde Maria Callas a Lou Reed e Velvet Underground. As imagens são vistas num mosaico de situações, eventos e pessoas de seu convívio, emm atmosfera de diário íntimo, iluminação ultra-saturada e cores intensas.

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Amores turbulentos e o encantador cotidiano com drags

Vários outros slideshows conduzem o espectador pelo universo de Nan Goldin. Em “Heartbeat”, de 2000-2001, mergulhamos nos turbulentos relacionamentos amorosos ao som de Björk cantando “Prayer of the heart”, de Sir John Tavener. São 245 slides sobre a interação entre homem, mulher e filhos.

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Em "The other side", fotografado de 1972 a 1992, fazemos um passeio pelo mundo dos travestis, que começou a ser clicado quando a fotógrafa foi morar com um grupo de drag queens e quis registrar seu cotidiano, mostrando o encanto criado por elas fora das restrições de gênero. Na série “Landscapes”, cedida pela Matthew Marks Gallery de Nova York, vemos imagens raras no trabalho de Nan Goldin. São 17 fotos que ela guardou por longo tempo com o argumento de que o mundo exterior lhe é pouco familiar.

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Sem moralismo fotografou a morte dos amigos

No final dos anos 80, ao sair de um centro de reabilitação por abuso de drogas, viu a maioria dos seus amigos fotografados morrerem até os anos 90 por overdose ou AIDS. Nesse momento tão doloroso, Nan fotografou sem moralismo. Contou que chegou um dia a acreditar que não poderia perder nada nem ninguém se os fotografasse exaustivamente. Para não explorar a imagem de pessoas queridas, em cada reedição de suas mostras, Nan consulta os sobreviventes para saber se eles querem continuar no projeto. As imagens de sua crônica da Nova York dos anos 70 e 80 estão nas coleções das mais importantes instituições de arte do mundo. 

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As pessoas tendem a achar que um fotógrafo é um voyeur, mas ela nunca penetrou a festa de ninguém, a festa era dela, das memórias dela com seus amigos. Essa intimidade e realidade tornam as fotos de Nan Goldin tão genuinas e tocantes. São sentimentos e situações privadas que ela compartilha com o mundo só para ela não perder, para ela saber que aconteceu.

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A paisagem pessoal exposta e vulnerável

Desde 1995, Nan explorou assuntos diversos e participou de projetos de livros de colaboração com o famoso fotógrafo japonês Nobuyoshi Araki, skyline da cidade de Nova York, paisagens misteriosas (chamadas de pessoas da água), seu amante Siobhan, bebês, paternidade e vida familiar.

Seu gosto pelo desarranjo retrata temas universais em uma lente que sai do senso comum, expõe uma realidade encoberta por tudo que a cerca, podendo ser até perturbadora. São fotos pessoais de sua família, amigos e amantes, e inclusive dela mesma.

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Artista surge espancada em auto-retrato

Em seu auto-retrato mais polêmico, aparece machucada, um mês depois de ser agredida por um ex-namorado. Nan relatou em entrevista que fez a foto para não esquecer o sofrimento. Sua afeição pelos seus próprios temas expõe sua vulnerabilidade, resultando num álbum de família real e despretensioso. Segundo Adon Peres, cocurador da mostra no MAM, "Goldin capta essa imensa quantidade de informação sem filtrar, analisar ou categorizar. Suas imagens vêm de relacionamentos, não de observações". 
Ela recebeu em 2007 o Hasselblad Award e é representada na América desde 1992 exclusivamente pela Galeria Matthew Marks e em Paris, pela Galeria Yvon Lambert.

Heartbeat será exposta a partir do dia 9 de fevereiro até dia 8 de abril de 2012. Terça a sexta de 12h às 18h e sábado, domingo e feriado de 12h até 19h. A inteira é R$ 8,00