Crise, guerra e luxo costumam andar sempre juntos. Não foi por acaso que todas as marcas que desfilaram até agora na São Paulo Fashion Week capricharam na nobreza dos tecidos e no requinte dos detalhes. Foi uma temporada espetacular em matéria de capricho e sofisticação. Reinaldo Lourenço recuperou tecidos como a zibeline, característicos da alta costura dos anos 60, em modelos com o design campeão de uma lancha Riva italiana. A Preciosa, única empresa que há 800 anos ainda fabrica seus cristais na Boêmia, fez uma parceria com Rodrigo Rosner e Lino Villaventura, fazendo os modelos cintilarem ainda mais na passarela. Viaje nesse luxo.
Ninguém melhor do que Reinaldo Lourenço para transportar o design clássico de uma lancha Riva para um vestido. Craque, o estilista se divertiu misturando inteligentes referências náuticas, como as costuras aparentes nas mangas e os bolsos de couro franzidos aplicados nos vestidos, com tecidos e formatos da alta costura dos anos 60. Balenciaga, se estivesse sentado na primeira fila, teria adorado as formas ovaladas dos vestidos de zibeline. Micromatelassês, ilhozes e cordões lembrando o material das velas dos barcos, delicados jacquards construiram um verão 2013 completado por óculos esportivos em lentes de acrílico coloridas da marca Ventura e escarpins bicolores com detalhes imitando para-brisas e bicos de lanchas em PVC. Corte reto nos cabelos e unhas em azul, coral e branco acompanharam os tons da coleção.
Singularidade foi o tema da grife, que viajou ao ano de 2035 em holografias, números binários e grafismos. Minimalismo e futurismo em cores claras foram quebrados por cintos metálicos em prata cravejados de cristais. O grafismo contagiou até as meias com geometrias contrastantes. Calças justas de boca razoavelmente largas, shorts curtos e vestidos retos traduziram com a precisão matemática de Glória uma elegância sensual e super contemporânea. Couro, organza, cetim, zibeline e algodão moldaram peças retas algumas vezes com o toque futurista de casacos em crepe de acetato. Alexander Van Peterkin, responsável pelos penteados, usou rabo de cavalo baixo com corte reto e sem volume nos cabelos, enquanto Fabiana Gomes adotou a neutralidade da maquiagem com as cores das roupas, o efeito funcionou para chamar a atenção das estampas em números e letras de código binário em bege, preto e off-white.
Vitorino Campos: a mulher poderosa e seu fiel costureiro
O estilista batizou sua coleção de "Não tradução" e filosofou: "o pensamento não precisa se tornar palavra, porque as palavras não estão à altura do pensamento”. Na passarela do estreante, um show classudo de vestidos com barrado em preto e branco, volumes em saias e mangas largas, calça de cintura alta e saia lápis recordando os anos 50. “A coleção começa contando uma história mais lisa e simples em preto e branco. O êxtase acontece com a entrada da cor pêssego”. As geometrias e formas abstratas se harmonizam com a silhueta de cintura marcada anos 50, modernizada por zíper aparente e óculos escuros quadrados bicolores. Para provocar, mesmo que de leve, a mulher poderosa, que não vive sem seu fiel costureiro, é colocada em salto alto fino com plataforma aparente.
O cabaré camaleônico de Lino Villaventura
“Eu não me inspirei na vida, e sim a vida que me inspira” disse Lino, que está mais magro e até bronzeado em contraste com os cabelos grisalhos. O estilista busca no corpo feminino seu aliado para construir vestidos longos com transparências estratégicas, formando caleidoscópio sensual e extremamente chique, com máscara de festa. Colocada num patamar de divindade, a mulher de Lino tem os ouvidos cerrados por tapa-orelhas de palha, numa pegada artesanal. Lindos os vestidos fluidos de organza fininha, como asas de fada, que em camadas de tons pastéis parecem que vão se desfazer a um movimento mais brusco. Para as poderosas, Lino revisita o mundo das melindrosas em longos metálicos e brinca com as alças finas cruzadas nas costas. As minimalistas também são atendidas nesta coleção camaleônica, com vestidos ladylike cinquentinha de tecido plastificado, opaco. “Sou fiel aos meus tecidos, os cortes em mosaico foram feitos a mão, ali não tem tecnologia”, afirma. Brancos estonteantes de moulage e seda pura deslizando pela silhueta esguia das modelos, surpreendem em origamis e volumes assimétricos. O vestido-casulo é divertido, mas não menos elegante, com acabamento de renda lateral em vermelho fatal. Salamandras de cristal Preciosa, de origem tcheca, enfeitam as máscaras. “Adoro esses bichos. Algumas pessoas acharam que usei uma quantidade exagerada", brincou. Diante do assédio dos jornalistas no backstage, Lino foi categórico: “não tenho respostas para todos os porquês, não sei o que tentei passar, quem tem que sentir é quem assistiu”.
Rosner e as mulheres húngaras
Em meio a rendas, plumas e muita pedraria, a grife R. Rosner, do estilista Rodrigo Rosner, desfilou uma coleção transparente e clássica. Inspiração: as mulheres da Hungria de 1948 que lutaram pela independência. Ou seja, as aristocratas da época que incorporaram os elementos das roupas dos camponeses aos trajes ocidentais. Cristais da Boêmia brilharam na transparência da organza sobre lingerie retrô da Triumph. Clássico e bucólico se misturaram com glamour. Cintura alta, casacos de plumas e estampas feitas a mão com bordados e pedrarias sofisticaram o lado camponês. Confeccionados por Cristiano Bronzatto, da marca Louloux, do Rio Grande do Sul, os sapatos vieram sob a forma de sandálias de salto mais grosso douradas em mosaicos de estampa animal ou abertas com detalhes em tule. Super autoral, o trabalho de Cristiano Bronzatto foi usado para quebrar as cores neutras da coleção, segundo o stylist da coleção Gabriel Weil. Fabiana Gomes, responsável pelo make das modelos, apostou no neutro, e engrossou as sobrancelhas das meninas.
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