Heloisa Marra
: Heloisa Marra

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Frida Kahlo é uma fonte inesgotável de surpresas. Suas conexões com artistas mexicanas, europeias e com o surrealismo abriram caminho para um universo de imagens fantásticas, marcadas pelo imaginário das culturas indígenas do México e pela riqueza de ornamentos e acessórios característica das amazonas poderosas que viveram naquelas terras muito antes dos espanhóis chegarem.

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Segundo a curadora Teresa Arcq, as primeiras obras em que Kahlo utiliza a tecnica surrealista são de 1932, quando sofreu um aborto. Na época produziu uma série de cadavres exquis em parceria com a artista e fotógrafa americana Lucienne Bloch. Culta, a par do que acontecia na Europa, Frida entrou em contato com o movimento através de Rosa Rolanda, que, em 1928 foi morar no México com seu marido, o pintor Miguel Covarrubias.


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Na ocasião, segundo a pesquisadora, Frida tinha 20 anos e estava noiva de Diego Rivera. O casal Covarrubias era amigo dos surrealistas, em especial do poeta Louis Aragon e do fotógrafo americano Man Ray. A viagem dos Covarrubias pelo Istmo de Tehuantepec e amizade com Kahlo marcaram a obra de Rolanda. Ela e Kahlo compartilharam a paixão pela indumentária e pela joalheria típica, a gastronomia mexicana e o colecionismo da arte popular.

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María Izquierdo, pintora originária do estado de Jalisco, também se inspirava na cultura local. Foi, segundo a curadora, a primeira artista que chamou a atenção dos surrealistas. "Quando o dramaturgo francês Antonin Artaud chegou ao México em 1936 à procura de uma arte que conservasse o espírito da arte primitiva, comoveu-se diante de uma série de obras de Izquierdo que mostravam mulheres indígenas nuas, prostradas diante de imponentes ruínas". Levadas por Artaud, as artistas mostraram seu trabalho na galeria Van den Berg, em Montparnasse.

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Muitas histórias aconteceram em Paris. Por intermédio de Jacqueline Lamba, Kahlo conheceu a poetisa francesa Alice Rahon, casada com o pintor e teórico do surrealista Wolfgang Paalen. Começou com ela um relacionamento erótico e amistoso baseado em experiências compartilhadas, que se prolongaria por anos. Alice encantou-se com Frida e sua obra e escreveu para ela um belíssimo poema inspirado no quadro "Mi nana y yo", que fez parte da exposição em Paris. Alice e o marido em companhia da fotógrafa suíca Eva Sulzer acabaram também se instalando no México.


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A pintora espanhola Remedios Varo escreveu a Frida pedindo que intermediasse sua viagem ao México como refugiada com o companheiro, o poeta surrealista Benjamin Peret. Frida, entretanto, não foi bem sucedida e Varo, segundo a pesquisa da curadora, teve de esperar quase 2 anos para sair de Marselha com o apoio do Emergency Rescue Committee e os recursos da empresária norte-americana Helena Rubinstein, que financiou a sua passagem.

O diplomata mexicano Renato Leduc também não conseguiu ajudar Varo. Ele, por sua vez, casou-se com Leonora Carrington, em Lisboa, em 1941, para que ela pudesse fugir da Europa com destino a Nova York e estabelecer-se, posteriormente, em território mexicano.

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De acordo com Teresa Arcq, a chegada dos exilados europeus revitalizou a vida cultural no México. "As mulheres artistas como Kahlo ou Izquierdo que puderam expor as suas obras em Nova York e Paris não contavam em seu próprio país com galerias para exibição comercial e estavam excluídas dos espaços oficiais.

México vira surrealista

Inés Amor, diretora da recém-fundada Galeria de Arte Mexicana, assumiu o risco de transformar o seu espaço em uma galeria de vanguarda, apresentando a Exposição Internacional de Surrealismo, organizada por Paalen e pelo poeta peruano César Moro, em 1940. A exposição causou verdadeiro frisson desde que foi anunciada. 'No dia 17 haverá uma exposição de pinturas surrealistas e todo mundo no México virou surrealista porque todos vamos participar...', escreveu Frida a Nickolas Muray".

Roupa como arte

Quem for à exposição poderá ver os trajes que tanto marcaram o estilo de Frida, que fez do seu guarda-roupa uma forma de arte. Nele
 destacam-se peças de vestuário nahua, otomíe, totonaca, yalalteca (jacalteca), mixteca e zapoteca. Frida Kahlo teve especial predileção pelo traje de tehuana usado pelas mulheres do Istmo de Tehuantepec, e é provável, segundo a curadoria da exposição, que esse gosto tenha surgido em função da origem oaxaquenha de sua mãe, que foi retratada quando jovem usando esse vestido tradicional, marcante por sua beleza e exotismo.

 

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